Endocrinologista e Metabologista
Diabetes
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Por que a resolução da ANVISA em proibir os implantes hormonais manipulados é adequada?

Na última semana, a ANVISA tomou a decisão de suspender, por tempo indeterminado, a prescrição, manipulação, comercialização, propaganda e aplicação de implantes hormonais manipulados, em resposta ao pedido de 34 sociedades médicas, que já vinham expressando preocupações sobre o crescimento dessa prática e os efeitos adversos associados cada vez mais evidentes e frequentes. A decisão foi influenciada pelo registro de eventos adversos na plataforma VIGICOM HORMÔNIOS, criada com o objetivo de monitorar e prevenir o uso inadequado de hormônios.
O uso de implantes hormonais manipulados ainda carece de evidências científicas consistentes que provem sua eficácia e segurança. Para qualquer medicação ser considerada válida, é necessário que haja ensaios clínicos randomizados e controlados que mostrem um perfil de risco benefício favorável. No caso dos implantes hormonais manipulados, tais estudos ainda não existem. Basear-se em estudos antigos, retrospectivos e com metodologia inadequada não é suficiente para justificar a prescrição dessa prática. É por isso que esta decisão da ANVISA é mais do que bem-vinda, correta e pertinente. Ademais, é fundamental que qualquer proposta terapêutica seja acompanhada de provas claras de sua segurança. Não é razoável exigir que as sociedades médicas, preocupadas com uma prática não suficientemente estudada, provem que ela é prejudicial. O ônus da prova deve ser de quem propõe a intervenção. Se estudos adequados forem realizados e comprovarem que a prática é segura e eficaz, certamente não haverá oposição a ela.
Não válido justificar a prática com base em outros tratamentos comprovadamente eficazes que utilizam implantes subcutâneos. A via e a forma de administração de uma medicação influenciam diretamente em seu efeito, não seno possível estender os resultados de um tipo de implante para outro sem a devida comprovação científica para cada caso específico. Os implantes hormonais frequentemente contêm uma combinação de diversos hormônios, sem que se saiba com precisão os efeitos dessa mistura e não vêm com bula detalhada, indicando dosagem ou tempo de duração comprovado do efeito.
Quando ocorrem as complicações, endocrinologistas e outros especialistas ficam sem embasamento sobre como proceder nessas situações, pela falta das informações confiáveis. É importante, também, afastar a desinformação que mulheres com endometriose ou sintomas da menopausa ficarão sem tratamento devido a essa suspensão. Isso não é verdade, pois existem muitas outras opções de tratamento eficazes e seguras para essas condições, todas com respaldo científico. Não faz sentido substituir uma terapia bem estudada e comprovada por uma que ainda carece de evidências robustas. Essa decisão representa uma vitória para a saúde pública, pois nenhuma intervenção médica deve ser desprovida de regulamentação e de monitoramento contínuo.
As farmácias de manipulação não podem produzir tratamentos sem a devida fiscalização, e médicos não podem tratar seus pacientes como cobaias baseados em experiências pessoais ou suposições. A medicina deve ser conduzida com ética, responsabilidade e ciência. Nessa mesma linha, o conselho Federal de Medicina já havia proibido o uso de esteroides androgênicos (Testosterona e seus derivados) e anabolizantes com a finalidade estética, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo, desde 2023
Fonte: Conselho Federal de Medicina